'A FUNÇÃO DO HISTORIADOR É LEMBRAR A SOCIEDADE DAQUILO QUE ELA QUER ESQUECER' Peter Burke
domingo, 11 de março de 2012
Casa de Rondon
Casa de Rondon ...não sei... Tão habituada a chama-la de minha casa...
Estranho pensar não é "minha", não estou aqui querendo me apropriar de um bem público, mas segundo o entendimento de outros moradores que por ali passaram na época da ocupação da fazenda Tapirapuã pelo MST em 1996, eles a tinham como deles. Por isso também minha. Uma vez que por lá também fiquei e fico, pois lá ainda está meu guarda roupa, minha cama, meus livros, minhas lembranças do que parece ser outra vida, meu sofá já velho gasto, rasgado, onde ainda nele descansamos após um período de trabalho,na sala também velha gasta onde assistimos à televisão.
Emocionou-me ver a foto tirada pela TV/CA onde se podem ver na frente da janela do meu quarto, os vasos feito com partes de um antigo filtro que achei jogado nos fundos da escola,que enchi de terra preta retirada debaixo das mangueiras que existem na lateral da casa, onde plantei uma muda de trepadeira que tive o trabalho de trazer da casa de minha mãe lá em Dourados-MS, para enfeitar minha janela.
Minha casa pois ali passei quase três anos da minha vida, e todos nós sabemos que quando saímos dos trintas as coisas acontecem muito rápido, então passamos a valorizar muito qualquer pedacinho de tempo e foram bons tempos, tristes também, pois faz parte da vida a alegria, a felicidade o estar acompanhado e a solidão.
Foi lá nos fins de semana em que todos os professores vinham para cidade, que eu caminhava pela "minha casa" e que podia ouvir sua voz, pois casa fala, me sentava no banquinho, que nosso ex-diretor Mário havia colocado na porta para fumar, no final da tarde e sentir a brisa que vinha do rio que nos dava uma folga do imenso calor que nos atordoava nas tarde de verão e ficava ouvindo o som dela os ruídos, imaginando as histórias das pessoas que por ali haviam passado,como terá sido para eles chegarem ali nas margens do rio Sepotuba onde atracava a balsa olhar para cima e ver aquele casarão com suas janelas azuis e caiado de branco com aquela varanda farta dando para o rio, sim pois a frente da casa é para o Rio Sepotuba, Rondon e sua Comitiva quando ali chegaram devem ter olhado para aquela elevação visto o rio e pensado aqui vai ser um bom lugar, seguro próximo ao rio mas longe o suficiente das cheias constantes e deve ter apreciado o por do sol a brisa e determinado sua construção, conta à história que era o ano de 1906.
Quando ia ao rio tomar um banho no final da tarde e me deitava nas pedras que tem logo ali no fundo do casarão ficava pensando,naquela época será que as mulheres da casa também tinham estes momentos de liberdade, tranquilidade de se deitar naquelas pedras e simplesmente sentir a água passando pelo corpo? Cuidado dizia uns é perigoso cobra, tem arraia diziam outros, é perigoso tem bêbados! Você vai ficar sozinha não tem medo dos fantasmas? Não, não medo dos fantasmas... Só dos meus mesmos... Saudade das pessoas que amo, das duvidas e incertezas sobre o caminho certo a tomar, mas como era bom ouvir o burburinho do rio o vento nas arvores, sempre achei aquele lugar lindo.
Aprecio muito do que Rondon fez, sua determinação sua bravura ao partir para o desconhecido, mas nada me emociona tanto em Rondon quanto o fato de ele ter mandado construir a sede do Telegrafo neste lugar, as margens deste rio que 106 anos depois pude ocupar.
Já conhecia a casa tinha me apaixonado por ela em 1994 quando vim com minha família conhecer a sede da Fazenda, mas nunca imaginei que o destino me traria ali tanto tempo depois para uma experiência inesquecível.
Casarão ou sede, como é carinhosamente chamado pelos moradores do Assentamento Antonio Conselheiro, em Tangará da Serra, a 242 km de Cuiabá, já recebeu visita ilustre como a do ex-presidente Roosevelt, que após perder sua reeleição na busca de um terceiro mandato entrou em depressão. Para ajuda-lo Lauro Muller Ministro das Relações Exteriores que tinha como incumbência alicerçar a aproximação definitiva do Brasil com as nações da América, o convidou para uma expedição ao Amazonas que acabou se tornando a Expedição Roosevelt e Rondon que aconteceu entre 1913/1914.
Em 12 de dezembro de 1913, quando Roosevelt desembarcou no Rio de Janeiro de onde seguiu, por terra, para Corumbá, no Mato Grosso e lá se encontrou com membros de sua equipe a comitiva de americanos somava 25 pessoas que estavam em Buenos Aires e haviam navegado desde a capital Argentina pelo rio Paraguai.Na cidade de Cáceres, ao norte, finalmente se encontraram com Rondon e sua equipe. De lá, a expedição navegou pelas águas do rio Sepotuba até a fazenda Taberapuã (como é chamada em alguns documentos) onde devem ter refeito suas forças, na "minha casa" de janelas azuis com sua ampla varanda, que imagino cheia de redes para oferecer descanso a tão ilustre visitante, fico pensando sobre o que conversavam, será que os poucos moradores da região tiveram oportunidade de conhecer tão ilustre figura? Sabiam o que Rondon estava fazendo por ali novamente? Entendiam a importância da Comitiva de Rondon? Ou para eles era somente um grupo de gente da Capital com umas pessoas de língua estranha, com equipamentos esquisitos pegando insetos e plantas? Quantos dias ficaram ? O que comeram? Onde dormiram será que no "meu quarto" ou lá era escritório? As minhas indagações nestes momentos eram tantas...
Mas a expedição devia continuar, no lombo de burros e em carroças puxadas por bois, atingiram a nascente do rio das Dúvidas, já em plena selva amazônica, no dia 27 de fevereiro de 1914 e encerrou-se, em 30 de abril de 1914, na confluência dos rios Castanho e Aripuanã.
Na ocasião, Theodore Roosevelt chegou a Manaus com graves problemas de saúde. Acredita-se que sua morte, cinco anos após, resultou das sequelas dessa viagem. Mas isso é outra história.
A casa que Marechal Cândido Rondon mandou erguer em 1906 e servia como uma das bases para a comitiva de Rondon que era responsável por levar linhas telegráficas para comunidades distante foi tombada como Patrimônio Histórico Cultural do Estado de Mato Grosso. Conforme Guilherme Shenkel, secretário de Turismo do município, várias etapas foram cumpridas até que o local fosse tombado. “Veio uma técnica e avaliou se a casa tinha aquela relevância histórica que a gente apontava. Tudo isso foi comprovado e agora o tombamento foi sancionado pelo governo. Hoje ela é um dos 150 bens tombados no estado de Mato Grosso”, destacou.
A Casa de Rondon... A "minha casa"...o Casarão com seus fantasmas que assombrou o imaginário de tantos adultos que ali tiveram que fazer pouso e juravam ouvir barulho de correntes sendo arrastadas pelo piso, que acreditam pertencer aos escravos da fazenda que morria ali nos pilares da sala que dizem serem troncos aonde os escravos eram amarrados para serem açoitados, ou pelos que como pena máxima era jogados no buraco que fica embaixo da casa e vai dar no rio para morrer,ou pelo Marechal que vinha assombrar os motoristas encarregados de fazerem o transporte escolar e as crianças da escola que eram constantemente alertadas do perigo de serem pegas pelo Marechal, para assim evitar que fossem até o rio.
Tantas histórias...
Tantas lendas...
Tanto a descobrir tanto a contar.
Resta-nos a esperança de que o Tombamento tardio apresse se não a restauração,ao menos a conservação do local que está se desmanchando como podemos observar no nosso dia-a-dia, como disse em visita na sexta-feira 09/03 a Casa de Rondon o professor e vereador José Pereira "com o Tombamento fica mais fácil requerer verbas do Governo do Estado para a conservação da Casa".
Casa está que é minha, pois ali fiz uma parte da minha história e fiz parte da história de muitos,sua Casa morador do Assentamento Antonio Conselheiro pois abriga uma parte da história da ocupação destas terras,sua professor que ensinou as primeiras letras para muitos dos acampados na escola da Sede, sua professor da escola cujo prédio fica "em frente ao casarão"? Erro de planejamento? Descaso?
Esta Casa está tombada resta agora recuperar sua história e sua beleza.
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